esta noite acordei. estava escuro e só se ouviam sons abafados na distância. era noite e estava a mudar a hora.
tudo no sistema solar abrandava os seus movimentos acomodando-se a um estado de coisas conforme ao atraso dos ponteiros.
uma certa sabedoria rural e antiga ajustava em silêncio o real à legalidade iluminada dos poderosos emissores de calendários.
pela calada da noite, atentas aos decretos das capitais, as revoluções das orbes celestes alinhavam o passo pela contingência do momento num recanto obscuro do universo.
repetia-se aquele momento da história em que corpos celestes, expulsos dos campos da lei natural, experimentam abrupta interrupção de seus movimentos de translação por forças mais vetustas, mais arcaicas, mais atávicas, secretamente guardadas na ponta de espadas e de lanças.
esta noite acordei e estava a mudar a hora. estava escuro e não se entendiam bem os sons abafados na distância. não pensei que fosse o fim do tempo. mas receei adormecer e encontrar na madrugada uma avaria fundamental na revolução das orbes celestes cujo mecanismo nem copérnico nem galileu saibam explicar.
Porfírio Silva
25 de outubro de 2026






