(este poema acabou por ser publicado em Público, Privado, mas este é o momento da primeira leitura em público, no dia seguinte à sua escritura)
monstros antigos
caderno de rascunhos para a poesia de porfírio silva
19 de setembro de 2026
23 de maio de 2026
Todo o homem é uma ilha
Todo o homem é uma ilha,
linha de costa que recua e avança a cada hora,
parte visível de uma massa de rocha e magma,
dedo à tona de uma placa tectónica do fundo dos tempos,
cume de uma montanha mergulhada na parte submarina da vida.
Todo o homem é uma ilha
alimentada pelo corrupio vital das correntes marinhas,
dos nutrientes que viajam, das sementes que vão e vêm,
do pólen de muitas espécies gerando filhos aqui e além,
das aves que ligam arquipélagos e continentes, viagens tuas
e minhas.
Todo o homem é uma ilha, nó de tantas rotas,
encruzilhada de gentes que demandam portos, comércio,
migrações: não há ligações tão diretas como as marítimas;
só as fúrias dos ventos dispersam os odores humanos
entrelaçados desde o princípio dos tempos.
Todo o homem é uma ilha, abrigo na tempestade,
farol e pedido de abastecimento: água e trigo,
onde falta ferro para as espadas
e solo para o cultivo dos víveres,
onde se vive cada dia do que vem e do que vai.
Tudo está errado em dizer que nenhum homem é uma ilha:
vês a metáfora da insularidade como separação,
confundes uma membrana com um muro:
todo o homem é uma ilha
na encruzilhada dos caminhos do mundo.
5 de março de 2026
No dia da morte de A. Lobo Antunes
Agora que morri
não vão a correr
ler os meus livros
passados. Atentem, antes,
na falta que me fez
conversar contigo, leitor,
saber dos descaminhos
do meu enredo, ao vivo,
eu vivo, e ouvir-te
desdizer as personagens
que, habitando-me,
fugiam desordenadamente
para o mundo, talvez
traindo o criador,
mas, hélas, falhando
repetidamente a criação
de um humano capaz
de sair de casa sozinho.
Agora que morri, escritor,
não vão pendurar capas
dos livros no estendal,
leiam Stendhal e
aguentem todo o tempo
armazenado entre
a Cartuxa de Parma
e o Cu de Judas,
aguentem esse tempo
como eu esperei
a medo que a eternidade
fosse, afinal, tangente
à hipotenusa do vazio
escorada em memória de elefante.
20 de janeiro de 2026
uma rapariga persa
é persa, a rapariga;
fartos, os cabelos descobertos:
acendendo o cigarro na chama
do retrato ardente do supremo líder
na noite escura do Irão
figura um campo de possíveis
vemos a noite escura do Irão
e trememos
não, não vemos a rua iraniana
ardendo contra a fúria dos guardas
que Ali Khamenei confunde com o profeta
da revolução prostituída (a prostituição
tornou-se endémica entre as revoluções)
e vieram os verificadores de factos
vemos a noite escura do Irão
e tememos
sim, o que vemos é uma imagem e imaginamos:
vemos Melika Barahimi, refugiada, em Toronto,
23 anos, fumando, cabelos descobertos,
num estacionamento a anos-luz
do homem das fartas barbas
e imaginamos os mortos os cegos e o tumulto
vemos a imagem
e visivelmente dói-nos a noite escura do Irão
não vemos as balas nos olhos feridos
não vemos a cor horrenda dos lealistas
os cabelos descobertos estão a salvo
dos costumes da polícia dos costumes,
mas vemos a noite escura do Irão, como uma dor
cobrindo toda a terra onde ainda habitam [humanos
vemos a imagem e dói-nos:
a labiríntica vida dos símbolos
(janeiro 2026)
30 de dezembro de 2025
alguns costumes das pedras
(com Cinthia Marcelle em Serralves)
Chegámos ao tempo em que 3 segundos te parecem tempo demais para ouvir uma palavra nova, como um passo em falso para onde vais empurrado violentamente e de surpresa.
Chegámos ao tempo em que não suportas os 3 segundos que os teus olhos pedem para processar o escuro e o teu cérebro trabalha em todos os vectores para retomar a navegação.
Chegámos ao tempo em que 3 segundos de espera são um preço demasiado alto e incompreensível por um encontro com um desconhecido vindo de longe, com outra língua e outra tribo na bagagem.
Chegámos ao tempo em que tomas 3 segundos a entender que ninguém é profeta na sua própria terra, que é o tempo que demoras a ponderar a missão de converter quem quer que seja a um credo qualquer.
Eis-nos aterrados no tempo em que 3 segundos é todo um ciclo de expectativas, avançando e recuando entre o declive ascendente do desejo e o fim do sopro e a desilusão.
Este é o tempo deserto em que alguns bons costumes das pedras se perderam, parece que irremediavelmente.
21 de julho de 2025
UMA MISSA PELAS 14 HORAS
Ouço na rádio que será rezada uma missa pelas 14 horas.
Será que as 14 horas morreram?
Terá sido de repente?
Terão morrido sozinhas as 14 horas ou terão morrido também as 15, as 16 e as 17 horas?!
Quantas horas terão morrido?
Vamos passar a ter dias mais curtos, dias com intervalos em branco, dias com buracos suspensos no tempo onde nada bule, onde ninguém se aproxima ou se afasta de ninguém, dias com horas cinzentas onde os velhos abandonados se tornam o ícone da civilização presente?
Emergem dúvidas. Várias. Seja o caso dos animais que pensam: nesses buracos sem horas ficarão de mentes vazias, vegetais contemplativos, ou continuarão pensantes, embora quedos e mudos, como a imagem que se move solitária no ecrã do cinema sem espectadores, pensantes sem qualquer efeito no mundo?
Quanto aos animais que sentem: nesses intervalos horários, nesses nevoeiros difusos, deixarão quer de sofrer quer de exultar, ou ficarão como pedras de olhos abertos que veem passar as crianças pobres que dormem a noite ao relento como uma agitação inconsequente rumo ao esquecimento?
Quanto aos animais que nem pensam nem sentem, ultimamente bafejados pela evolução dos ecossistemas, fará qualquer diferença que os nossos dias estejam cheios de horas mortas, como se todas as horas da vida fossem, para essas populações em franca expansão, apenas um lençol embrulhando o vasto aparelho reprodutor das suas espécies de um só espécime?
Quanto às árvores centenárias, sem palavras, avisadas da impossibilidade de qualquer narrativa abarcar tudo o que decorreu a seus pés desde tempos imemoriais, posto o risco, o perigo e a ameaça de confundir o eterno passado com uma visão claríssima do futuro e com os amanhãs que cantam, as árvores centenárias sorriem marotas quando escrevemos “vegetais contemplativos”, disfarçando o rubor que às suas faces assoma por se saber que incontáveis animais, figurando embora na lista dos que pensam e dos que sentem,
não se movem mais do que uma azeda tocada pelo vento
nem à vista do mais doloroso sofrimento.
Há vidas inteiras enterradas nas horas mortas da nossa indiferença e nunca ouviremos na rádio o anúncio de qualquer oração que possa expiar esse pecado.
7 de julho de 2025
Observatório dos peixes diádromos
salmões lampreias esturjões o sável a savelha
a solha-das-pedras a truta-de-rio a boga-comum a truta-marisco
enguias europeias enguias americanas gobídeos
uns nascem no mar e migram para os rios
outros nascem em rios e migram para o mar
no ir e no voltar trepam represas e açudes
altos obstáculos armadilhas ameaças
os predadores, que cheiram seus tenros filhos,
e a bússola, tonta pelas temperaturas avariadas
uns nascem no mar e migram para os rios
outros nascem em rios e migram para o mar
mas todos partem das suas terras líquidas para crescer
e quase todos regressam para as encher de filhos
os estudiosos algo sabem sobre a sua vida nos rios
pela vantagem da proximidade, aparente, física
observam a desova veem-nos saltar pescam-nos
mas há mistérios densos sobre as suas vidas oceânicas
porque o mar é imenso, porque se dispersam
porque se entranham nas escuras profundezas
se escondem nas cavernas e evitam as luzes
porque falam línguas estranhas entre si
como se fossem perseguidos
ou porque muitos dos que os procuram
se perdem a ir ou a voltar
ou esquecem o que viram
uns nascem no mar e migram para os rios
outros nascem em rios e migram para o mar
e, todos, as metades motrizes das suas vidas
permanecem segredo insondável, mistério,
permanecem para nós essencialmente desconhecidas
esta é a vida dos peixes diádromos
verdadeiramente não há uma pátria dos peixes migradores
eles nem sabem que se cruzam nos estuários
não sabem que os juntámos numa categoria
muito menos que servem uma mínima alegoria
nem os que vão do salgado ao doce
nem os que vão do rio ao mar
os peixes que migram nunca atravessaram o deserto
não afundaram em balsas no Mediterrâneo
não viram a guerra através da cortina da sua janela
não lhes interditaram as suas línguas
não lhes cortaram o caminho da escola
migrantes, filhos de migrantes, netos de migrantes
nem sabem a sorte que têm de serem peixes
porque, do seu natural,
as falas dos predadores lhes são inaudíveis
26 de junho de 2025
[há imensos lugares da Terra]
há imensos lugares da Terra
onde já não podemos voltar
as linhas férreas continuam lá
e os vagões sobre elas deslizando
cumprindo ou não os horários primitivos;
as águas dos mares oceanos
ainda não se evaporaram completamente
e nem todos os navios naufragaram;
nos céus entre mísseis ainda há ar
e nos aeroportos restam fronteiras
onde os afortunados podem atravessar –
persiste, pois, a possibilidade teórica da viagem
mas nenhum transporte é tão poderoso
que possa levar um humano a um vulcão de vazio
e a Terra é hoje uma crosta de chamas:
onde antes vivemos vidas diversas
onde longe da casa materna encontrámos habitação
de onde trouxemos oxigénio e pão
hoje só existe distância mudez e solidão
onde já não podemos voltar
agora que todos os caminhos foram tomados
pelos bárbaros aquartelados nas nossas mentes
há imensos lugares da Terra
onde estamos todos a morrer e nem sabemos
25 de junho de 2025
26 de abril de 2025
Os sapatos pretos de Francisco
Os teus sapatos pretos, gastos
mas limpos,
cozidos pelo sapateiro argentino,
porque toda a pessoa vem de algum lado,
os sapatos pretos que escolheste
para a última das caminhadas
tantas onde te gastaste,
limpo, permanecendo limpo,
não condenavam os sapatos vermelhos
da tradição tradicional,
não desprezavam o símbolo habitual
(foste parco em desprezos),
simplesmente inauguravam novo símbolo
o símbolo
de que vale a pena gastar a vida a viver
vale a pena gastar os sapatos a percorrer
os caminhos insondáveis dos outros,
vale a pena sujar os sapatos na terra
onde chegam os que fogem do inominável
sem exércitos que os defendam
e permanecer limpo
vale a pena sujar as mãos a lavar dores
e permanecer limpo
vale a pena erguer a voz contra a guerra
e permanecer limpo
vale a pena cuidar em lugar de julgar
e permanecer limpo
vale a pena expulsar vendilhões do templo
e permanecer limpo
gasto mas limpo
limpo porque gasto
como os sapatos
pretos das caminhadas
limpos agora das dores terrenas
falando tão alto os gestos
como as palavras.
Os teus sapatos pretos, gastos
mas limpos,
falam, Francisco.
(26 de Abril 2025, dia em que o Papa Francisco foi tumulado levando os seus sapatos pretos habituais)
27 de maio de 2024
POESIA CONCRETA
Apaga a luz
o guarda pões às escuras
Bate nas latas
baralhas as escutas
Sopra na poeira
misturas as pistas
Ri ao desbarato
confundes os tristes
Diz publicamente o que tens a dizer
Ouve atenta a contraproposta
Volta a pensar
Volta a dizer
Viaja nas razões de costa a costa
Volta a escutar
Podes negociar no recato
Pesa com cuidado o que há a fazer
Não temas ponderar o impacto
Vai e volta
Vai e talvez revolta
Vai de companhia
quando não de batalhão
Não vás sozinha
nem em dias de solidão
Suja as mãos
não a convicção
Erra
Erra
Erra
Enterra a semente
A semente berra
mais alto do que todos os frutos maduros
da árvore da
cautela.
(A imagem foi gerada por pedido a um programa de Inteligência Artificial.)





