27 de maio de 2024

POESIA CONCRETA



 

Apaga a luz

o guarda pões às escuras

Bate nas latas

baralhas as escutas

Sopra na poeira

misturas as pistas

Ri ao desbarato

confundes os tristes

Diz publicamente o que tens a dizer

Ouve atenta a contraproposta

Volta a pensar

Volta a dizer

Viaja nas razões de costa a costa

Volta a escutar

Podes negociar no recato

Pesa com cuidado o que há a fazer

Não temas ponderar o impacto

Vai e volta

Vai e talvez revolta

Vai de companhia

quando não de batalhão

Não vás sozinha

nem em dias de solidão

Suja as mãos

não a convicção

Erra

Erra

Erra

Enterra a semente

A semente berra

mais alto do que todos os frutos maduros 

                                    da árvore da cautela.


(A imagem foi gerada por pedido a um programa de Inteligência Artificial.)

18 de março de 2024

(Para o Nuno Júdice)


 

Não podemos neste dia

escolher uma das tuas palavras,

um exemplar único dos teus poemas.

Seria dolorosamente curto,

exercício excessivo de razão deslocada.

Uma violência como preferir pai ou mãe.

Olhando-te, hoje, inteiro,

há uma expectativa na tua morte:

que venha a revelar-se a fonte bravia

dessa inteligência de ver o mundo

sem desfazer o mistério e a urgência 

de amar desmesuradamente

o que sobe o rio na margem oposta.

Que fique a trabalhar a terra o teu segredo.


(18-03-2024)

27 de julho de 2023

(Ao Eduardo Pitta, 09.08.1949-25.07.2023)

 




Jaz um poeta vertical entre nós.

Repousa, afinal, em posição horizontal.

Um rapaz a arder

na sala dos espelhos

cegos

onde nos vemos.

Jaz um poeta entre nós. Calado,

ouvimos as tuas palavras.

Como quem escuta através da porta

entreaberta entre duas salas

continuam a falar-nos as tuas palavras.



3 de outubro de 2021

Iolanta, em Tchaikovski

 

O rei não autoriza que saibas da cegueira.

Da tua cegueira.

Organiza o reino, o mundo, a corte,

o discurso vigiado da aurora ao ocaso,

a casa como um teatro

para que não saibas que os olhos

não servem só para chorar.

Que não te falem da luz, nem da beleza,

nem de um je ne sais quoi cuja falta pressentes.

Que os olhos sós não vêem,

como as máquinas fotográficas não vêem.  

Da diferença

entre uma rosa branca e uma vermelha,

que escapa

à polpa dos dedos.

De como se pode saber que alguém chora

sem tocar as lágrimas nos seus olhos.

(Nunca esqueças

que quase tudo na civilização é indirecto.)

Iolanta: teu pai, René de Provença

não te protege da tua cegueira:

protege o rei do feroz esplendor

de no mundo conviver com a dor.

Protege do mundo o protector,

a versão romanesca da falsa consciência de classe.

10 de setembro de 2021

Sobressalto

 


 

(Para Jorge Sampaio)

 

Depois de uma manhã quebrada da friura

E de um fugaz pináculo do dia

Cai agora a tarde sereníssima

O silêncio das árvores calou os pássaros

A imensidão da noite amansou o mar

E uma súbita solidão

Acrescentada às dores do mundo

Reclama um sobressalto

Inadiável sem remorso.

Camarada, seguimos-te nisso:

O fastio do quotidiano não nos adormecerá.

 

10 de Setembro de 2021

 

10 de janeiro de 2021

História completa do momento presente

 



A guerra aquece, a guerra arrefece
e os corpos esgaçam,
abrem fendas a princípio finas
depois abismos;
a variação térmica extrai dos corpos
experiência
como sumo de um fruto esmagado nas mãos,
decanta a dor como uma essência perfumada.
Já não há natureza
nada é hoje como era para ser
tudo é história:
as minúsculas indecisões de um momento
as escolhas mínimas
os gestos em miniatura de todos e ninguém
elevam-se como catedrais centenárias
na paisagem de cada dia.
Os pequenos olvidos desenham o edifício do mundo.
 

 

10 de janeiro de 2021

7 de janeiro de 2021

Decameron

 


Uma e outra vez, a natureza

dentes afiados cravados no nosso cachaço

arranca da habitação

expulsa da cidade e da assembleia

entrega à floresta densa, nebulosa e violenta

legiões de corpos doados ao medo, à disputa, à incerteza

gente abandonada ao vento inclemente 

do deus omnipotente instinto de sobrevivência

onde garras aguçadas são veludo, luvas de baile

mandado. Passados todos estes séculos,

regressamos:

a Florença de que saímos vagueia expatriada,

não tomamos já doses certas diárias de estórias

e, contudo, dez dias de afastamento e delírio

ainda satisfazem o alto conceito de retiro

orquestrado para arrancar lobos ao convívio dos lobos.

A comédia humana não conhece os dantescos degraus

entre o inferno, o purgatório e o céu,

as personagens são inteiramente terrenas

e térreas todas as suas moradas:

como um caminho ignoto na floresta

a peste apaga a ordem e a desordem

sem leis só existe a força

e a diferença na força

e a lei da força,

a fraca figura de uma espada de madeira

quando as de aço ferem:

a fome é tão contagiosa como a peste,

nenhuma se cura com castidade

nem se distrai com a alegria.

Decameron, 

dez dias para um tempo de encruzilhadas 

onde os caminhos se separam

precisamente nos lugares

onde antes se juntaram.


(Janeiro de 2021)


16 de novembro de 2020

o mistério do nada, 2

 

quem no mistério do nada só vê lava

e os arbustos da ilha em frente,

sem os séculos crescidos sobre o medo,

sem o espanto, as interpretações originais

e as derivadas, as obras literárias e a teologia,

as migrações, as peregrinações e os dias andados

antes de todas as viagens se tornarem excursões,

quem no mistério do nada só vê

o que se vê, dirá

que os mistérios do nada não existem.

Ou são somente um capítulo da física do vácuo.

 

 

(Ilha do Pico, Agosto de 2015)