23 de maio de 2026

Todo o homem é uma ilha

 


Todo o homem é uma ilha,

linha de costa que recua e avança a cada hora,

parte visível de uma massa de rocha e magma,

dedo à tona de uma placa tectónica do fundo dos tempos,

cume de uma montanha mergulhada na parte submarina da vida.

 

Todo o homem é uma ilha

alimentada pelo corrupio vital das correntes marinhas,

dos nutrientes que viajam, das sementes que vão e vêm,

do pólen de muitas espécies gerando filhos aqui e além,

das aves que ligam arquipélagos e continentes, viagens tuas e minhas.

 

Todo o homem é uma ilha, nó de tantas rotas,

encruzilhada de gentes que demandam portos, comércio,

migrações: não há ligações tão diretas como as marítimas;

só as fúrias dos ventos dispersam os odores humanos

entrelaçados desde o princípio dos tempos.

 

Todo o homem é uma ilha, abrigo na tempestade,

farol e pedido de abastecimento: água e trigo,

onde falta ferro para as espadas

e solo para o cultivo dos víveres,

onde se vive cada dia do que vem e do que vai.

 

Tudo está errado em dizer que nenhum homem é uma ilha:

vês a metáfora da insularidade como separação,

confundes uma membrana com um muro:

todo o homem é uma ilha

na encruzilhada dos caminhos do mundo.

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