Todo o homem é uma ilha,
linha de costa que recua e avança a cada hora,
parte visível de uma massa de rocha e magma,
dedo à tona de uma placa tectónica do fundo dos tempos,
cume de uma montanha mergulhada na parte submarina da vida.
Todo o homem é uma ilha
alimentada pelo corrupio vital das correntes marinhas,
dos nutrientes que viajam, das sementes que vão e vêm,
do pólen de muitas espécies gerando filhos aqui e além,
das aves que ligam arquipélagos e continentes, viagens tuas
e minhas.
Todo o homem é uma ilha, nó de tantas rotas,
encruzilhada de gentes que demandam portos, comércio,
migrações: não há ligações tão diretas como as marítimas;
só as fúrias dos ventos dispersam os odores humanos
entrelaçados desde o princípio dos tempos.
Todo o homem é uma ilha, abrigo na tempestade,
farol e pedido de abastecimento: água e trigo,
onde falta ferro para as espadas
e solo para o cultivo dos víveres,
onde se vive cada dia do que vem e do que vai.
Tudo está errado em dizer que nenhum homem é uma ilha:
vês a metáfora da insularidade como separação,
confundes uma membrana com um muro:
todo o homem é uma ilha
na encruzilhada dos caminhos do mundo.

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