5 de março de 2026

No dia da morte de A. Lobo Antunes

 



Agora que morri

não vão a correr

ler os meus livros

passados. Atentem, antes,

na falta que me fez

conversar contigo, leitor,

saber dos descaminhos

do meu enredo, ao vivo,

eu vivo, e ouvir-te

desdizer as personagens

que, habitando-me,

fugiam desordenadamente

para o mundo, talvez

traindo o criador, 

mas, hélas, falhando

repetidamente a criação

de um humano capaz

de sair de casa sozinho.

Agora que morri, escritor,

não vão pendurar capas  

dos livros no estendal,

leiam Stendhal e

aguentem todo o tempo

armazenado entre 

a Cartuxa de Parma

e o Cu de Judas,

aguentem esse tempo

como eu esperei

a medo que a eternidade

fosse, afinal, tangente

à hipotenusa do vazio

escorada em memória de elefante.


Porfírio Silva
5 de Março de 2026

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