Agora que morri
não vão a correr
ler os meus livros
passados. Atentem, antes,
na falta que me fez
conversar contigo, leitor,
saber dos descaminhos
do meu enredo, ao vivo,
eu vivo, e ouvir-te
desdizer as personagens
que, habitando-me,
fugiam desordenadamente
para o mundo, talvez
traindo o criador,
mas, hélas, falhando
repetidamente a criação
de um humano capaz
de sair de casa sozinho.
Agora que morri, escritor,
não vão pendurar capas
dos livros no estendal,
leiam Stendhal e
aguentem todo o tempo
armazenado entre
a Cartuxa de Parma
e o Cu de Judas,
aguentem esse tempo
como eu esperei
a medo que a eternidade
fosse, afinal, tangente
à hipotenusa do vazio
escorada em memória de elefante.
Porfírio Silva
5 de Março de 2026
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