é persa, a rapariga;
fartos, os cabelos descobertos:
acendendo o cigarro na chama
do retrato ardente do supremo líder
na noite escura do Irão
figura um campo de possíveis
vemos a noite escura do Irão
e trememos
não, não vemos a rua iraniana
ardendo contra a fúria dos guardas
que Ali Khamenei confunde com o profeta
da revolução prostituída (a prostituição
tornou-se endémica entre as revoluções)
e vieram os verificadores de factos
vemos a noite escura do Irão
e tememos
sim, o que vemos é uma imagem e imaginamos:
vemos Melika Barahimi, refugiada, em Toronto,
23 anos, fumando, cabelos descobertos,
num estacionamento a anos-luz
do homem das fartas barbas
e imaginamos os mortos os cegos e o tumulto
vemos a imagem
e visivelmente dói-nos a noite escura do Irão
não vemos as balas nos olhos feridos
não vemos a cor horrenda dos lealistas
os cabelos descobertos estão a salvo
dos costumes da polícia dos costumes,
mas vemos a noite escura do Irão, como uma dor
cobrindo toda a terra onde ainda habitam [humanos
vemos a imagem e dói-nos:
a labiríntica vida dos símbolos
(janeiro 2026)
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