20 de janeiro de 2026

uma rapariga persa

 



é persa, a rapariga;

fartos, os cabelos descobertos:

acendendo o cigarro na chama

do retrato ardente do supremo líder

na noite escura do Irão

figura um campo de possíveis


vemos a noite escura do Irão

e trememos


não, não vemos a rua iraniana

ardendo contra a fúria dos guardas

que Ali Khamenei confunde com o profeta

da revolução prostituída (a prostituição 

tornou-se endémica entre as revoluções)

e vieram os verificadores de factos


vemos a noite escura do Irão

e tememos


sim, o que vemos é uma imagem e imaginamos:

vemos Melika Barahimi, refugiada, em Toronto,

23 anos, fumando, cabelos descobertos,

num estacionamento a anos-luz

do homem das fartas barbas

e imaginamos os mortos os cegos e o tumulto


vemos a imagem

e visivelmente dói-nos a noite escura do Irão 


não vemos as balas nos olhos feridos

não vemos a cor horrenda dos lealistas

os cabelos descobertos estão a salvo

dos costumes da polícia dos costumes,

mas vemos a noite escura do Irão, como uma dor

cobrindo toda a terra onde ainda habitam                                                                             [humanos


vemos a imagem e dói-nos:

a labiríntica vida dos símbolos



(janeiro 2026)


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