16 de novembro de 2020

o mistério do nada, 2

 

quem no mistério do nada só vê lava

e os arbustos da ilha em frente,

sem os séculos crescidos sobre o medo,

sem o espanto, as interpretações originais

e as derivadas, as obras literárias e a teologia,

as migrações, as peregrinações e os dias andados

antes de todas as viagens se tornarem excursões,

quem no mistério do nada só vê

o que se vê, dirá

que os mistérios do nada não existem.

Ou são somente um capítulo da física do vácuo.

 

 

(Ilha do Pico, Agosto de 2015)

o mistério do nada, 1

 

 


o mistério do nada é lava e arbustos, distância,

menos geografia do que toponímia popular e desregrada,

mais vistas vagas e vagarosas do que lugar numa viagem,

uma história inteiramente fora da tradição vero testamentária

pois aqui a sarça e o fogo não pegaram um único acontecimento.

o mistério do nada não existe,

ao ser esta formação vulcânica visitável em grupo

e o nada somente um inferno de solidão.

 

 (Ilha do Pico, Agosto de 2015)

 

5 de agosto de 2020

emergência, 18




é o regresso que edifica ulisses.
depois da queda de tróia
não há um caminho direito para ítaca,
o colo de penélope não espera num vértice certo do mundo:
lugar algum encontras sempre no mesmo sítio.

o regresso constrói ulisses, como uma trepadeira incerta:
há o cativeiro, em calipso, que podia ser doméstico;
há o cantor cego da ilha de esquéria
que conhece alguns amores entre deuses;
há toda a sorte de tempestades
e uma colecção de ventos incompleta;
há os ciclopes, a poderosa raça
dos que vêem tudo sob um único ponto de vista;
circe, a deusa do feitiço banal
de transformar homens em animais;
tirésias, a personagem cega da corrupção;
sereias que enleiam os humanos com os seus desejos;
monstros de muitas cabeças
capazes de todas as opiniões num só dia
“um leão meu deus eu tenho a certeza de que ele teria alguma coisa melhor para dizer”
e mar, muito mar por atravessar,
“as pessoas podiam suportar serem mordidas por um lobo,
mas o que propriamente as irritava era a mordidela de uma ovelha”.

entre tróia e ítaca há penélope
entre tróia e ítaca
“o caminho mais comprido é o caminho mais curto para casa”
quem sabe se penélope parou de tecer

numa década de homero ou num dia longo de joyce
mergulhas nocturno num regresso marítimo urbano
a um estado de emergência informal como tróia
uma terra estrangeira ao cabo de incontáveis curvas no mar

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5 de Agosto de 2020, perdida a conta aos dias da emergência

2 de junho de 2020

emergência, 17



há uma imensa nave do tempo presente
sobrevoando as nossas cidades.
este pequeno dia em frente dos teus olhos,
este curto agora – cega.
nele investimos todo o intenso esforço da urgência
todos os remos contra o naufrágio no inesperado
enquanto cresce olvidado o lento amadurecimento
dos cereais roxos da seara dos venenos
o lento amadurecimento das gerações por vir
a astuta seta da impensada entropia:
o pássaro voa nas correntes quentes da inércia
as asas, hirtas, já não fecham
entramos num voo eterno sem ginete
doridos do passado, doridos do futuro
o presente trabalhando com afinco como o grande distractor.

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2 de Junho de 2020, trinta e um dias depois do estado de emergência

20 de maio de 2020

emergência, 16


nesta dorida travessia por túneis vários
andámos sempre atrás dos nossos próprios passos.
percorremos as ameias da muralha sitiada
sobre vales verdejantes
ao longo de linhas curvas fechadas
seguindo o traço desenhado da circunferência
ou o risco mitigado da elipse

na tangente das fronteiras exteriores da ideia de progresso.
com a matéria áspera visitámos o centro do vórtice
e descobrimos o leve cheiro a queimado do mecanicismo.

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20 de Maio de 2020, décimo oitavo dia depois do estado de emergência

10 de maio de 2020

emergência, 15


na ilha de prinkipo, no mar de mármara,
a seis horas de viagem da peste em istambul,
o embaixador dos habsburgos na corte de solimão,
como milhões antes e milhões depois,
via a doença como sopro do oriente.
1561 não é longe nem perto: estamos lá cada dia
em que culpamos alá, o diabo, o velho cansado
nas escadas da igreja de alessandro manzoni e milão,
o oriente, os nómadas seculares entre nós.
1561 não é ontem nem amanhã: habitamos cada peste
como órfãos dos nossos vizinhos
e algozes das leis escritas em tempos de abundância.
se alexandria do egipto já não é de toda a orbe
o principal escritório de quarentena
é porque a fronteira entre o dentro e o fora
é linha que risca agora cada uma das nossas casas,
cada uma das nossas terras,
que quebra hoje cada uma das nossas asas,
soprando para longe cada certeza
com uma dor imprecisa como nuvem que se mascara.
a dor de entrar na história universal
como mais um grande romance.

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10 de Maio de 2020, oitavo dia depois do estado de emergência
(depois de ler Orhan Pamuk)

3 de maio de 2020

emergência, 14



acordei cedo
apalpei o dia à janela
e não vi novidades na tepidez da manhã.
o fim do estado de emergência
não trouxe pássaros novos
nem devolveu os conhecidos.
desconhecidos cumprimentam-se na rua,
entram-nos pássaros nos quartos de dormir;
aves livres cumprimentam-nos como vizinhos,
há nas casas uma falta sensível de pessoas conhecidas.
todo o medo que tenho
mostrou-mo béla tarr no tango de satanás:
o doutor confunde o toque a finados com sinos celestiais
e finalmente entaipa a janela, como se
o mundo pudesse ser deixado do lado de fora da vida:
resta-lhe escrever às escuras.
a distância social não nasceu da emergência,
vivia entre nós há mais tempo
do que alcança o braço das memórias juvenis –
como um cão enorme
de uma raça perigosa
criado no salão da casa
a beber limonada
e a roer as pernas dos móveis
com tanto afinco como o bicho da madeira
e o estatuto das carpideiras pagas para chorar por nós.

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3 de Maio de 2020, primeiro dia depois do estado de emergência

(imagem da exposição Pequenos Artistas à Descoberta do Museu, organização Jardim Infantil Nossa Senhora da Piedade e Museu de Évora, Maio de 2011)