16 de abril de 2019

A catedral.



A catedral, olhando ao longe do alto dos seus pináculos,
viu gente morrendo nos mares de fronteira do velho continente.
E chorou pela humanidade
náufraga ao largo dos seus portos de abundância.
A catedral chorou.
E chorando queimou séculos de história dentro de si,
por uma civilização avariada às vésperas do incêndio,
carente de um sobressalto estremunhado
capaz de acordar o sonâmbulo antes que o galo cante três vezes,
antes que termine a madrugada.

(15 de Abril de 2019, neste dia vimos a catedral de Notre-Dame em chamas)

21 de março de 2019

[Naquele fim de tarde de sol]

Naquele fim de tarde de sol
Dois grossos pingos de chuva caíram
No branco da tua blusa
Cúmplices
Por alturas do teu seio escondido.
Até então escondido.
Naquele princípio de noite iluminada
Entraste de leve nas águas do mar
Cúmplices
Colando o azul da tua saia às tuas coxas encobertas.
Até então encobertas.
As águas do céu e as águas do mar,
Cúmplices,
Mostraram-me o teu corpo.
Naquele princípio de vida
As tuas breves palavras
E as minhas palavras a jorros,
Cúmplices,
Deram-nos vontade de provar o que não existia.
O que até então não existia.

(in Porfírio Silva, Monstros Antigos, Esfera do Caos, janeiro de 2014)

A máquina da linguagem

Na fábrica do mundo
as linguagens, como os continentes, derivam e apartam-se.

Uma máquina funciona de certa maneira, produz certos movimentos
dadas as regras construtivas e os muitos cuidados organizados que encarna:
a máquina perfeita é um símbolo do seu efeito.
Esta máquina, contudo, habitava o mundo.
Se é certo que os mais apenas a certas manivelas próximas do piso térreo
[davam uso,
se de todo ousavam tocar-lhe,
já os mercadores rabiscavam sem cessar planos de pormenor
para adaptar o mecanismo às mais subtis mudanças de humor dos forasteiros,
pois os forasteiros espalham as notícias e as notícias convém sejam boas.
Os profetas, esses, raramente
usavam os procedimentos mais procurados para os fins práticos,
antes impunham vastas mudanças de ritmo das componentes principais,
desgastando-as em acelerações bruscas de que poucos escrutinavam a
[ intenção.
Os imperadores podavam a máquina como pomares,
ora um raminho aqui e outro raminho ali, ora cegando os troncos mais viçosos
(sabe-se que a poda orienta o crescimento e apura a produção),
menos à luz de meros caprichos
do que da esclarecida necessidade de poupar o povo a ilusões.
Os estetas, propositadamente, trocavam peças úteis por inúteis
só para calcular o efeito do aleatório no desempenho
– e, a uma máquina que assim até à raiz habita o mundo,
pode uma ou outra das suas peças entortar,
o comportamento real da máquina deforma-se,
certas peças vão ao ponto de partir:
que violência se faz à palavra.

As palavras escolhem o que se semeia e o que se amealha,
nem tudo se pode dizer com estas palavras:
quando em definitivo saíste da casa do pai,
as palavras e as coisas não jogavam umas com as outras,
como se o último copérnico falasse do nascer e do pôr do sol.
Receias justamente:
animais ferozes, inominados, escondem-se na fala organizada
e saltam dos ramos, emboscados, ao mais leve descuido
semeando desordens.

(in Porfírio Silva, Monstros Antigos, Esfera do Caos, janeiro de 2014)

Fragmento de uma biologia dos monstros antigos

Poderás pelo poder da tua fábrica produzir monstros antigos?
Poderás, mesmo sem vestígios fósseis,
pela pura compreensão do seu genoma,
construir um centauro,
de raiz, sem pai nem mãe,
como um programa na máquina a correr,
ou apenas com peças avulsas de monstros modernos?
Será possível um corpo,
metade homem metade cavalo,
que a evolução não trouxe, natural, até hoje,
resultar da tua habilidade recente?
Nasceria de tal arte um rosto, torso e braços semelhantes aos teus
com garupa e pernas de equídeo?
Pergunto-me de que outras estruturas corporais complicadas
será capaz o teu engenho.
Bichos fantásticos, metade lagostim metade cabra,
vivendo ora em seco ora na água?
entes metade anjo metade escorpião,
metade virgem metade rei,
metade candura metade linguagem?
Estará no poder da tua fábrica
compreender a génese ao ponto
de estruturas corporais espantosas resultarem,
produzindo novos monstros antigos,
metade palavra metade silêncio,
vivendo ora nos teus ora nos meus medos?



(in Porfírio Silva, Monstros Antigos, Esfera do Caos, janeiro de 2014)

Apostilha à história das instituições (o dia seguinte)

Rasgar o mapa dos poderes:
sorrateiramente, evitando mostrar que sabes,
dar a palavra ao servo e fazê-lo brilhar;
deixar o senhor, falando, tão solene, sombrar;
não infringir à luz do sol nenhuma norma clara,
mas agir antes pela astúcia da razão:
deturpar certos preceitos orais da tradição
e fazer com a cautela uma vergonha rara;
estilhaçar o uso das ferramentas morais,
usando-as,
usando a honra como a espada dos samurais;
ler livros proibidos às horas de refeição,
desgostar os teus amigos sendo tão solitário,
tomar a dose de individualismo diário,
falar alto ao medo, solto, pregá-lo no chão;
acreditar que os últimos podem ser primeiros,
que o calor, apertando, pode mudar os janeiros,
que a brisa, querendo, pode acalmar o verão,
que há revoltas para lá da escassez de pão.
Rasgar o mapa das estradas
e deixar a cada desvario que aconteça,
aguardar pelos perfumes nas encruzilhadas,
partir, venturoso, sem esperar que amanheça
aproveitando que as guardas dormem de noite;
escrever, sendo dextro hábil, com a mão esquerda
para pelo pasmo criar a oportunidade
de ler com ambas enterradas em corpos aflitos;
saltar da cama à noite para acudir aos gritos
aos quais te juntas noutro leito mesmo ao lado,
pedindo ao teu parceiro perdão do teu pecado
e ao teu pecado perdão pelo tempo perdido,
confesso incapaz do risco de ser mal-querido;
rasgar a solidão escrevendo letras de trovas,
e com elas ao mundo dar, mentindo, boas novas
e a todos os povos, ignaros, novos continentes:
nada importa, se acreditam, quanto tu mentes;
amar apaixonadamente todos os miseráveis
e comer chocolates belgas, dos puros, ao lanche,
aflito com a queda do cacau nas bolsas mundiais,
e com os maus desenvolvimentos desiguais;
aflito, tu que nada vês na economia,
que não ligas os pobres e a barriga vazia,
preocupas-te lindamente,
fazes por sofrer dores duras como as do parto,
saudoso das antigas crises existenciais,
das que lembram livros e boa filosofia,
antes, durante e depois de um jantar farto.
Se a literatura acabar, logo se verá.
Haja horrores:
podendo tirar deles sofrimento aceitável,
alto! alto! alerta! eu espero estar cá.


(in Porfírio Silva, Monstros Antigos, Esfera do Caos, janeiro de 2014)

Ninguém dorme debaixo da metafísica.



(“Ninguém dorme debaixo da semiótica”, disse Souto de Moura em Paraty.)



Ninguém dorme debaixo da metafísica.
E entretanto é preciso construir,
Construir casas, escolas, hospitais.
Tectos sólidos e abrigos contra o nuclear.
Abrigos, também, contra o acessório e o supérfluo
E contra a insidiosa facilidade de tudo explicar.
Ninguém se abriga da chuva debaixo da semiótica,
Nem do sol escaldante ela nos protege,
E faltam mesas para almoçar. Alguém inventa a pergunta patriótica:
Quem nos desenha essas mesas?
E até almoços nessas mesas. Ou pão pelo menos,
Ou o diabo para o amassar.
Faltam caminhos mais curtos
(não há consolo de não cabermos na nossa terra)
Para quem parte para o Abu Dhabi,
Que é como quem diz para parte incerta,
Como os dias: uma parte um pouco deserta,
Estar hoje aqui e amanhã ali,
E hoje e amanhã serem estados tão próximos da mesma alma.
Falta um recuo para quem escolhe caminhos fora da sombra,
Falta a sombra ou sobra a sombra, falta o sol ou sobra o sol,
Estamos sempre no erro errado em cada tempo,
Pelo menos é o que dizem os profetas do momento:
Planear tornou-se uma religião falsa de um deus fraco,
Estamos no vagalhão soprado por quem manda mais que o Olimpo.
Ou, antes, o Olimpo é ali aquela duna rasteira e suja.
E, dizes, as pessoas “não conseguem almoçar debaixo de um manifesto”:
Já nem caladas, nem caladas se conseguem ouvir,
Quanto mais fazer-se ouvir, Ah O Manifesto,
E gastaram as forças antigas que guardavam sendo amigas
(palavras gastas, mas poupa-as, que há poucas)
No esforço inglório de pensar que há um rumo.
O que é um rumo? Não é decerto, coisa da física,
Isso é um prumo, é o material e a força da gravidade;
Pensava que um rumo implicava uma certa margem,
Um certo grão, apesar de tudo, de liberdade.
E aqui tu dizes que ninguém dorme debaixo da metafísica.
Nesse caso, deita-te nela. Que as camas não são só para dormir.
Deita-te na metafísica a fazer outras coisas:
Como podemos falar contra construir castelos na areia à beira do mar
Se todas as casas são hoje barracas ao vento
Neste tempo em que até o tempo hesita
E muda inconstante a hora em que te visita.
Se é inútil saber História ou estudar Latim
Porque se perdeu a memória e sobreviver é um frenesim,
E afinal todas as línguas humanas são já línguas mortas
Quando as palavras se fecham como portas;
Como se pode dizer que ninguém dorme debaixo da metafísica?
Se já não há tecto, “não havia casa, não havia nada”,
Quem pensa em dormir? Só uma metafísica desesperada.



(in Porfírio Silva, Monstros Antigos, Esfera do Caos, janeiro de 2014)

a revolta das acácias



Esta é a história verdadeira da revolta das acácias.
Tudo à sua volta se movia e elas postas em sossego obrigado,
sem saída de caça nem passeio, sem música ou literatura,
pousadas nessas dunas deste país sem uma palavra terem boca para dizer.
Embora seres sem locomoção, vieram do sul
da Austrália e da Tasmânia pela mão do homem
para ornamento, que não por seu pé,
e para o trabalho de fixar os solos, como um rebanho domesticado,
um quedo escravo colectivo, pois ninguém liga às dores dos vegetais
como não se ouve uma máquina sem seiva.
E um dia, num plano em rede de silêncios
ou combinações apenas múrmures, afinidades
cavadas no inferno dos desprezos
alcançando distâncias maiores do que podia o homem compreender
no seu imprudente esquecimento dos rumores da terra
– um dia começou a revolta das acácias.
Qualquer uma da colónia abriria uma frente de combate
e todas o faziam à custa do seu sangue
enriquecendo os terrenos arenosos com isótopos estáveis de azoto,
criando nos arbustos endémicos de camarinha
e em outros vizinhos vegetais indígenas tão habituados à pobreza
vícios que já os livros da sabedoria condenavam:
o vício de comer quando há e a fome aperta;
o vício de crescer quando a doença não ataca,
no intervalo entre guerra e tempestade;
o vício de provar os prazeres e as promessas
(sejam elas vãs) de felicidade, mero repouso ou companhia.
Conta a história, e a ciência da ecologia, e os sábios com memória,
que assim nasceu e medrou a revolta das acácias:
numa aliança entre a sua força em terra estranha
e a miséria dos locais indiferente ao estigma do estrangeiro,
num abraço entre lágrimas e queixas de estirpes várias
e a saudade da alegria simples das quartas-feiras,
na passagem do desespero à força dos laços quebradiços mas sinceros,
do desespero às nocturnas imaginações de uma ilha distante em lado nenhum.
Porque há sempre um dia próprio do ser que habita a cidade
na mesma cidade que os outros seres do mesmo dia,
esta é mais do que a história verdadeira da revolta das acácias.
Este é um murmúrio vindo de longe aqui.


(in Porfírio Silva, Monstros Antigos Esfera do Caos, janeiro de 2014)
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20 de julho de 2018

[Subi ao Olimpo]




Subi ao Olimpo,
ao Monte Olimpo,
nas precisas coordenadas gregas dos mapas,
e vi os deuses.
Não estavam todos, mas vi os deuses.
E os deuses viram-me.
Nem eu acredito agora mais neles,
tão pouco eles em mim.
Nada mudou no mundo a ver os deuses,
qual é a dúvida?

30 de março de 2018

das redes para peixes e outros materiais



era um redondo vocábulo
uma ferida aberta

atalhos rápidos por entre as folhagens da linguagem
pisando as feridas com palavras como ácidos

argumentos inteiros esfacelados
em rajadas de cento e quarenta caracteres

máquinas de respostas automáticas
disparando urbi et orbi
de costas para o passado
de costas para o futuro
de costas para o presente

napalm no centro nevrálgico da tribo

bater e fugir, bater fugir e esquecer
quem ficar para trás
que reconstrua as gramáticas de Quinhentos
e recomece
havendo ainda com quem conversar
em paisagens de grandes espaços vazios entre vozes

20 de janeiro de 2018

o país dos outros



(lendo Rui Knopfli)



Hoje sonhei em braile.
Sonhei numa língua gestual para mim totalmente desconhecida.
Sem sons. Sem fala.
Não conseguia caminhar
E mesmo o esbracejar era lento e pesado.
Não conseguia atrair a mão nem o olhar
De ninguém. Havia um nevoeiro
Espesso como um cobertor molhado e frio
Separando os corpos como ilhas.
Tudo me prendia
A uma distância cinematográfica do comércio.
Entre os muros do momento presente,
Encontrei-me encalhado no país dos outros.
Os repórteres esperavam na beira da água
Pelas fotografias dos sobreviventes.