3 de julho de 2016

sem refúgio




Os cemitérios aproximam-se do centro das cidades
cheios de vizinhos
de homens e mulheres que atravessaram o mar
perseguindo um futuro inédito

e o encontraram
na nossa indiferença
como sepulturas.

1 de junho de 2016

em vida






Penso muito no que quero para ti
depois de eu morrer. Estultícia:
um morto está morto e nada tem a ver
com a labuta de prosseguir. É em vida
que hei de tratar disso.
É em vida que se morre.

28 de abril de 2016

Todos os livros







(para o Richard Zimler)



Fala-me dos livros que ainda não escreveste,

quantos, quais, por quê,

por que esperas,

que muros no mundo se levantam

entre ti e a tua obra inteira.

Que coisas no mundo se atravessam

entre o que és e o que podias ser,

não fora o tempo,

esse dispositivo que impede que tudo aconteça de uma vez.



28 de março de 2016

O astronauta de Salamanca








visitar a catedral salmantina em dia de peregrinação
e ver um Neil Alden Armstrong flutuar em pedra dura
entre densa flora e fauna na fachada plateresca da Porta de Ramos

viajar de tão longe exactamente à entrada norte, virada
ao palácio de Anaya,onde o astronauta pousa à chuva e ao sol
num emaranhado de representações mais tenso que a superfície lunar

para ouvir o silêncio do canteiro Miguel Romero no burburinho
das interpretações, preso pela mão ao ano do restauro enquanto viajam
no tempo do enigma os sequiosos da história que falha às suas vidas

para ouvir o concreto pedreiro esquecido na filigrana das crenças,
na turbamulta que deixou de desenhar trajectos na crosta do mundo,
de esculpir desejados anacronismos na superfície danificada da matéria


(Páscoa 2016)

20 de março de 2016

O olhar da andorinha (impaciência)




Veio cedo a Primavera. Dias e noites
com a mesma extensão, o equinócio
de Março antecipando-se cada ano mais
e mais e isso cada vez menos
mudando a vida do seco e do húmido.
Não tarda nada muda a hora
e a vida continuará igual debaixo das pontes
e dentro das casas onde não entram as palavras.

24 de dezembro de 2015

Boas Festas e um Ano Novo cheio de realizações




Entraste pelo teu próprio pé na bola de fogo, por quê?
Criaste nas tuas cidades um laboratório experimental do fim do mundo
Uma pequena idade do gelo Uma alteração climática privativa
E agora ardes Ardes paradoxalmente no escuro das cinzas
e passas ao lado Tudo se consome no artifício
solene da inutilidade A era da inutilidade abrasa
mais inóspita do que um arquipélago Mais interior Mais seca
A pedra torna-se em vida e a vida torna-se em pedra
É difícil encontrar o trilho para sair da bola de fogo Difícil
é saber se seremos nós aqueles de quem estávamos à espera.


24 de dezembro de 2015

14 de novembro de 2015

Copernic à Paris



Copérnico destruiu aquela ordem dos mundos
Responsável por ligar as teorias do além e do aquém,
Unir a teologia à antropologia numa régua única
E manter em ordem a fantástica harmonia.
Copérnico inventou a bomba de fragmentação
Que desalinhou os centros das esferas,
Que extraiu de uma humanidade una uma humanidade plural,
Da sua jaula inúmeras e desconhecidas feras,
Do homem fechado um universo infinito,
Empurrando como um êmbolo pelas vias tortuosas do tempo
Um encontro áspero entre pastores, recolectores e agricultores
Que nada mais partilham que a medonha impreparação para acolher
Modos diversos e desconhecidos de prover ao próprio sustento.
O pensamento coalhou
Em linhas imaginárias entre terras tão contínuas à face da Terra.
Há agora fragmentos de fronteiras cravados
Em cada centímetro de pele
Em cada segundo de tempo
Do nosso tempo
Da nossa carne.
Há agora um tempo dentro,
Um tempo denso,
Para procurar perto e longe
O defeito arquitectónico na dor que nos divide.


(pelo 13 de Novembro de 2015)

18 de setembro de 2015

Os casais imaginários.





(Para a Rita e o Nuno, a pensar do dia de amanhã)




O que mais enche a vida real é o terreno imenso do impossível.
Custa sabê-lo, mas quase tudo na vida é irrealizável,
Tudo o que se deixa fazer nunca são mais que pequenas ilhas
Dispersas no imenso deserto do concreto.
Mas é no estreito arquipélago do possível
Que habitam os casais imaginários,
Os que através de uma alcançam outra ilha, e daí outra,
Atravessando os afazeres diários,
Como se a volta completa ao mundo ou uma milha
Fossem afinal iguais distâncias, igualmente leves,
Igualmente curtas, dores tão breves
Como as lutas, tão serenas como as searas.
Os casais imaginários são únicos
Em não haver no mundo hipóteses mais claras:
Inventam-se a cada hora, ressuscitam
Nas ideias que fazem de si mesmos como pares amorosos
Inteiros e novidosos; a cada madrugada elevam as suas vozes
Contra a força do vácuo, evitando que se deslacem as pedras do mundo
Por fazer, impedindo que fique apenas em potência
Qualquer coisa que mereça inegavelmente acontecer.



(foto de Porfírio Silva sobre escultura de Cutileiro)

3 de julho de 2015

ACTAS DA DELEGAÇÃO PADUANA (EXCERTO EUSÉBIO)




I


Quando as televisões espalharam a notícia
da morte de Santo António de Lisboa
e as mais perras das línguas se soltaram
por comoção mais do povo que cardinalícia
vieram primos, afilhados e toda a espécie de parentes
de cada canto da terra,
uns mais gentios, outros mais crentes,
a maioria assim-assim, gentes
de planetas longínquos, santos de outras religiões,
que são planetas ainda mais remotos
dentro das pessoas, vieram paixões,
variados praticantes da meditação, cada um com sua pose,
até um descendente de Fernão Mendes Pinto,
só não vieram adeptos da gnose,
um chinês – minto: um mongol dos antigos,
um mestre de uma ordem militar de um século anacrónico
(Dom Paio Peres Correia, por poucos anos torto neste filme
qual daltónico em fitas a pretos e brancos,
os mesmos que bebiam em suaves solavancos
todo o cálice de absurdo, como se o tempo fosse achatado
entre uma carpideira e um surdo),
e já Nuno Brandão inventava, à pressa, aquela peça
moderna e arrojada, credo, sem teologia nem nada,
de santos antónios em barros de várias cores,
alinhados nas prateleiras do el corte inglés
a fazer a bandeira garrida dos novos amores,
e entrou um peixe dizendo que vinha a recado
do Padre António Vieira, por via de seu testamento,
e que, sendo peixe miúdo, era legado
também dos graúdos e dos que mais devoram,
como se o sermão tivesse convertido alguém,
e estávamos neste clímax de raridades metafísicas,
castigando os poucos cépticos que restavam,
que nestes tumultos as dúvidas ficam sempre tísicas,


II


quando entrou sisudamente
na cidade uma delegação:
do Reino de Pádua mandavam dizer
que os conventos de São Vicente de Fora, em Lisboa,
e de Santa Cruz, em Coimbra, estavam muito atrasados
na pessoal história do santo,
já face à pregação contra os albigenses,
a sua mais espinhosa coroa de glória,
quanto mais comparados com a primavera
do teólogo, do místico, do asceta e do notável orador e taumaturgo
que verdadeiramente Lisboa não sabia quem era
se saber de alguém não é agarrá-lo pelos fundilhos
à porta da morte, a última porta de uma vida séria,
e olhá-lo com os nossos pobres olhos cansados de tanta dor e miséria
que são os olhos que olham sempre primeiro
para os pés do seu próprio dono.


III


Vista a afronta da paduana delegação
– um santo formoso, se o é, afinal, nunca renega o solo natal –
o povo, preclaro, expulsou a representação

hospes hostis
(não sendo para trabalhar a bem da nação,
já Eusébio o ouvira da boca do Professor Salazar,
não há cá Inter nem Milão, você é nosso não é para abalar,
– Santo António teve sorte, foi para Pádua –,
ir enriquecer para o estrangeiro, ora, não lembra ao demo,
não o faça o dinheiro olvidar que Moçambique é Portugal,
a pátria, pantera, a Pátria, o clube, Pantera,
o clube, que é a pátria da segunda circular – eh, mainato!)

o povo, pois claro, guardou em escuras caves seguras
as bandeiras dos visitantes,
«não fossem molhar-se desfraldadas,
nem com gotas! nem por instantes!»
mas rasgou os tratados ecuménicos
e iniciou subscrição para uma estátua
no exacto centro do terreiro do paço, de costas para as águas,
uma estátua que abençoasse os que partiam
à conquista, e travasse o passo, à conta de mágoas,
aos que chegavam ignorando as palavras secretas da irmandade do panteão.


IV

Vou rever o meu testamento vital:
tinha-me esquecido do problema do panteão:
isto ainda acaba mal: também o grego Ulisses ainda hoje ignora
que Joyce, my name is Joyce, James Joyce,
meteu a Odisseia num dia só, mais hora menos hora.
Que é quanto dura a vaidade, a nossa e toda.




10 de junho de 2015

o persistente escaravelho




Lá, no coração do piloto do mundo,
o persistente escaravelho do livre-arbítrio
escava oblíquas sondas em direcção ao tipo ideal.
Esquecida do sol, essa múmia do desejo
repousa sob a máscara da vontade de poder,
encoberta pelo regime das entidades sincréticas
no avassalador trabalho de exaurir
todos os ramos da árvore da diversidade:
centímetro a centímetro da pele do mundo,
uma cor universal unirá numa só república degenerada
todas as denegações do possível.
Mas também eu acredito nos dias iniciais.
Quando, finalmente, zarpares do teu porto interior
e, atravessando descalço o mar dos grandes números,
encontrares, mostrengo, o Adamastor,
vê-lo-ás, pequeno e manso no reino obscuro,
acanhado aos pés do persistente escaravelho do livre-arbítrio,
este impante e viçoso, aquele seco e duro.
Terás, então, a espantosa iluminação de te olhares inteiro e nu,
por ti cercado.