monstros antigos
coisas que porfírio silva escreve e diz ser poesia
18 de Abril de 2012
[São quais as palavras metafísicas que queres evitar?]
São quais as palavras metafísicas que queres evitar?
Carne, canhão, fornicar, o pecado dos deuses,
o sonho dos centauros, a guerra, uma mancha de sangue no lençol,
os milagres dos sacerdotes, as saias das raparigas, os sexos
a arder debaixo da chuva, os nitratos do Chile, as crianças moribundas,
os empalados, a ordem dos inquiridores, um cardeal
com um séquito de criados, livros com desenhos
sem respeito pela moral, um grito pela pátria e pela grei,
o meu sexo na mão de outro rapaz debaixo de um cabanal,
a cerimónia de investidura a que faltei, uma associação de moradores
de Sodoma e Gomorra, o purgatório em co-gestão, uma honraria
atrás da qual ninguém corra, chefe, um estupro, aquele homem
feito escravo por eleição universal, metástase, a cátedra da razão,
um sistema de esquecimento central, um frémito quando percebes
as associações espúrias entre partes do mundo, um ovo galado,
a empregada moça e casada nos meus joelhos sentada
contra a sua vontade, muitos e avariados
pedaços de pessoas sem terra, um manual de intrigas à cabeceira,
uma aposta acertada, um casal de deuses sem eira nem beira,
toda a fé do mundo enterrada num beco sem saída, uma puta
de quem só conhecemos o medo da sida, eles não sabem
nem sonham que o sonho não comanda a vida;
a única palavra metafísica que um usurpador persegue é a palavra
palavra.
12 de Abril de 2012
de seus labirintos digo.
A casa em labirinto. Vive ela, Ana, mostra e interroga. Digo eu. Fazem-se labirintos dos pertences dos vivos, sem outro mapa que não as vozes andando pela casa. Vivem os labirintos em meio às praças, às claras plantados, por nossas muitas graças. E, claro, seus contrários. Tornam-se as casas em labirintos nos desencontros dos passos, nos vestígios de corpos pousados em algumas das palavras. Nascem segredos nas habitações das aves, nos voos rasantes aos troncos das mágoas. À vista do feito, vertem lágrimas os que nunca se perderam num bosque de águas, nunca entraram em terra alheia, nem de súbita iluminação padeceram, no centro íntimo de um labirinto morando perto. Ou dentro, que seja.
30 de Março de 2012
[Um avião com fadiga do metal]
Um avião com fadiga do metal
já não é um avião; é outra coisa;
talvez uma escultura;
uma escultura perigosa para passageiros.
A fadiga dos materiais é uma obscura história
da mecânica das coisas inventando a íntima fissura.
Uma sucessão de solicitações insondáveis
cavando silentes um lenho nos ossos pequenos e finos da matéria.
A preparação infinitamente pequena de um desenlace:
o precipício em pleno voo, em pleno dia, em plena vida
(uma estreia sem ensaio nem repetição).
A fadiga do metal não é um espectáculo do estado do mundo:
é a monótona via pelos modos de ruína lentos e insistentes,
entrando pela porta das singularidades na dolorosa plasticidade do corpo,
na malha das palavras e gestos desatendidos,
na obrigada paciência da espera. Na clareira da ausência.
Um corpo com fadiga do metal
já não é um corpo; é outra coisa;
talvez uma escultura;
uma escultura perigosa para os seus íntimos
e reservados passageiros.
14 de Março de 2012
a revolta das acácias
Esta é a história verdadeira da revolta das acácias.
Tudo à sua volta se movia e elas postas em sossego obrigado,
sem saída de caça nem passeio, sem música ou literatura,
pousadas nessas dunas deste país sem uma palavra terem boca para dizer.
Sendo embora seres sem locomoção, vieram do sul
da Austrália e da Tasmânia pela mão do homem
para ornamento, que não por seu pé,
e para o trabalho de fixar os solos, como um rebanho domesticado,
um quedo escravo colectivo, pois ninguém liga às dores dos vegetais
como não se ouve uma máquina sem seiva.
E um dia, num plano em rede de silêncios
ou combinações apenas múrmures, afinidades
cavadas no inferno dos desprezos
alcançando distâncias maiores do que podia o homem compreender
no seu imprudente esquecimento dos rumores da terra
– um dia começou a revolta das acácias.
Qualquer uma da colónia abriria uma frente de combate
e todas o faziam à custa do seu sangue
enriquecendo os terrenos arenosos com isótopos estáveis de azoto,
criando nos arbustos endémicos de camarinha
e em outros vizinhos vegetais indígenas tão habituados à pobreza
vícios que já os livros da sabedoria condenavam:
o vício de comer quando há e a fome aperta;
o vício de crescer quando a doença não ataca,
no intervalo entre guerra e tempestade;
o vício de provar os prazeres e as promessas
(sejam elas vãs) de felicidade, mero repouso ou companhia.
Conta a história, e a ciência da ecologia, e os sábios com memória,
que assim nasceu e medrou a revolta das acácias:
numa aliança entre a sua força em terra estranha
e a miséria dos locais indiferente ao estigma do estrangeiro,
num abraço entre lágrimas e queixas de estirpes várias
e a saudade da alegria simples das quartas-feiras,
na passagem do desespero à força dos laços quebradiços mas sinceros,
do desespero às nocturnas imaginações de uma ilha distante em lado nenhum.
Porque há sempre um dia próprio do ser que habita a cidade
na mesma cidade que os outros seres do mesmo dia,
esta é mais do que a história verdadeira da revolta das acácias.
Este é um murmúrio vindo de longe aqui.
8 de Março de 2012
em vez do apocalipse
Descubro dentro brinquedos partidos,
mais do que os deixados pela infância.
Carrinhos e bonecas, dardos, arcos e enigmas
desarrumados e sujos dizendo-me que
crescer é aceitar que somos piores
e mais pequenos do que o pensamento.
Crescer é aceitar o espelho.
Hoje o dia quebrou-se-me na mão
à primeira hora. À primeira palavra:
nem passámos sequer pelo apocalipse.
Os mortos não choram, os cativos não escrevem,
os vivos não esquecem.
Nem o esquecimento cura.
Os brinquedos partidos cá dentro regressam sempre,
não importa quais promessas eles nos tenham feito.
1 de Março de 2012
a escada leva à copa das árvores
Subi, como quem se despede e parte,
num gesto indecente inútil:
a escada não leva a lado nenhum.
Mais exacta e capciosamente,
a escada leva à copa das árvores
onde só habitam pássaros (e) refugiados,
uma linha de mundo sem recuo,
presa pelo peso dos rastos, essa força
da gravidade dos frágeis.
A escada no jardim do paraíso interrompe-se
entre uns poucos ramos ralos e folhas,
onde nenhum caminho foi pensado para os nossos meios,
onde nenhuma rosa espera que a colhas,
onde nenhum homem espera que o creias.
Mas alto, bem alto, suficientemente alto
para que a tua ausência defina um lugar invulgar,
fiz uma pergunta esquecida e alguém
caiu de uma escada como quem se despe e parte.
Terminada a colheita, o único fruto no pomar
são inúmeras escadas que levam à copa das árvores.
(Imagem: Fotografia de uma fotografia de José Pedro Croft, in Cadernos de Viagem, com o livro aberto em cima de um canto do meu escritório.)
7 de Fevereiro de 2012
as qualidades do vinho.
O enólogo ergueu à altura dos olhos o copo de vinho
maduro tinto e não bebeu.
Perguntou ao astrofísico o que via naquele vinho.
Vejo, respondeu, a origem do cosmos,
o hidrogénio que vem dos minutos primeiros.
Vejo, inteiros, os sóis anteriores ao nosso,
pelos átomos de carbono, onde posso
perder-me numa peça de muitos actos.
Vejo o princípio da Terra, muito antes
do que chamas factos, a formação das macro-moléculas.
Vejo a aparição da vida, a vinha selvagem
antes da tua indústria, vejo a técnica
e a tecnologia, vejo a magia como controlo,
a electrónica da fermentação, da temperatura,
vejo o domínio dos elementos.
Mas não via os lamentos, não via os servos
na vinha, não via os homens consumidos,
não via o sangue, não via a cor,
essa qualidade secundária que não está
no maduro tinto, apenas no suor.
10 de Dezembro de 2011
o mar visto do homem que tinha um farol
Ficam proibidas as cenas de nudez. Solitária que seja.
Proibidas, as cenas calculadas para enviar
informações ao inimigo. As coisas contidas na própria
ossatura do momento e que falam da pátria
o que nem os da pátria ousam saber, restringidas.
Precauções, todas as dos tempos. Proibidas,
as cenas de sexo. Interdito, para maior cobertura,
fica o próprio sexo.
Interditas desde este momento se encontram para o futuro
as informações, e os inimigos como seus destinatários correntes.
Proibir os inimigos é perseguir a paz, decerto.
Por mor de uma cautela superior, será declarada a abolição
das cenas todas e em geral. E extintas as suas agências,
pessoas que poderiam encorpar nos cenários.
Com ou sem roupa, afinal nesta doutrina tudo
é igualmente pornográfico e inimigo.
Todos, nesta teoria das colónias, veiculam informação
ameaçadora, plasmada na face pelo espanto,
traindo a felicidade consentida.
Alínea, essas pessoas declaradas extintas,
extintas, o verbo regula, pessoas extintas,
essas pessoas extintas são todas, em número,
as concebíveis. Ficam os anjos.
E as virtudes.
Fiquem os silêncios.
E os ácaros.
23 de Outubro de 2011
[coloca uma marca no momento]
Coloca uma marca no momento.
Não haverá de ser uma bandeira,
nem um padrão de descobrimento;
que seja tão somente uma maneira
de não desperdiçar parco contentamento.
Não espantes, apressado, o instante,
ainda que tempo seja de sofrimento;
de nós viverá, tu sábio, eu infante,
qual, dos dois, à bruta força do vento
a palavra, entre urzes, souber opor.
Prefira o homem saber da vida pela dor
do que, anjo, arcanjo, potência celeste, enfim,
ser puro pairar, plácido e paciente,
um quedo e cúmplice querubim.
[da série "sonetos imperfeitos"]
15 de Outubro de 2011
[Foi tudo roubado em Pousos.]
Foi tudo roubado em Pousos.
O frio no fundo da barriga por um beijo,
quando o sexo não era como as cerejas;
a ausência de pudor
como a única forma viável da ingenuidade;
as chamas acossadas dentro das lobas
e nós de fora, deuses das dúvidas,
soprando;
recordações recortadas no resto das fomes;
uma benção com palavras que nos escapam;
até as galinhas cubistas a debicar erva.
Tudo foi roubado. Pousos não existe,
mas isso não tira nada.
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