31 de março de 2020

emergência, 7



quando ardeu o teatro de shakespeare
e o poeta acabou
acabaram as peças
o público partiu,
o dramaturgo voltou para casa.
retirado, estava tudo por fazer.
faltava dormir na mesma cama da mulher
plantar um pequeno jardim
faltava conhecer as filhas e o filho verdadeiro
na história verídica da sua morte
porque uma família nunca parece o que é
faltava voltar a dizer um soneto de amor
ao conde de southampton.
o vulto literário consumado,
dissecados todos os vivos e todos os mortos do reino,
escritas e representadas todas as paixões do mundo,
estava tudo por fazer.
em cada rotação da terra descobrimos
estar sempre tudo por fazer.

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31 de março de 2020, dia 13 do estado de emergência


(imagem do Museu de Delos, fotografia de Porfírio Silva)

26 de março de 2020

emergência, 6



um guarda bem armado
a cada duzentos metros
de uma linha imaginária
nos confins da nossa terra

como chave entre o dentro e o fora
cerca entre o puro e o impuro
uma vigilância desmesurada
assente em códigos improvisados

e puro medo

e ninguém levanta os olhos para ver
que é apenas uma fronteira porosa
entre nós e o deserto
entre o nada e o incerto

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26 de março de 2020, dia 8 do estado de emergência

23 de março de 2020

emergência, 5




chegou afinal o dia
de sairmos na paragem do silêncio.
o comboio detém-se,
as portas abrem automaticamente,
desço os dois degraus,
piso a plataforma
e enfrento a vastidão nua do tecto dos himalaias.
nada bule.
os amorosos namorados coabitantes fornicam,
em casa;
extremosos pais teletrabalham com uma mão
e sopram nos tpc dos filhos com outra;
a violência doméstica vai de vento em popa,
os velhos permanecem isolados, entre parêntesis;
os demagogos, confiantes,
remexem fundo na arca dos grandiosos gestos, a distância...
mas cá fora, nos cruzamentos, piscam semáforos inutilmente.
e nós, chegou o dia, saídos na paragem do silêncio,
surpreendemos regimentos de homens mulheres sem idade
que aí habitam há décadas sem nos esperarem.

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23 de Março de 2020, dia 5 do estado de emergência

22 de março de 2020

emergência, 4


zagreb, zagreb, zagreb, mártir outra vez. começou há dias a primavera, um passo do mundo tão natural como o terremoto de lisboa em 1755, tão natural como o terremoto hoje em zagreb, e felizmente não conheço o padre malagrida destes tempos, não o suportaria tendo amigos tão perto do epicentro do tremor de terra, dispensando tão bem as teologias do castigo divino. a mundialização não se tece apenas de redes artificiais globais a misturar informação e ruído. o mundo todo na mesma rua também é saber de outros povos pela mensagem curta dos amigos de zagreb, metade em excelente português, metade num croata que não entendo, fazendo perceber que é uma estrela com muitas pontas.

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22 de março de 2020, dia 4 do estado de emergência

21 de março de 2020

emergência, 3




os hinos aos ideais da humanidade, de hölderlin,
neste espécime que me cruza em seu percurso mundano,
carregam na página de rosto a inscrição manuscrita
“nord-frankreich 1916”
denunciando uma trincheira, uma língua,
uma sobrevivência,
uma frente numa guerra europeia
e uma cadeia de transmissão acidentada mas eficaz
que transpôs a fronteira do milénio como o rubicão
até aos maltratados dias de hoje
mantendo em movimento um objecto que interroga
o que faz um soldado alemão na batalha
tateando com os seus olhos poesia,
a filosofia de um poeta, certeira mesmo que errada,
numa terra que tem tudo
e de repente não tem nada.

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21 de março de 2020, dia 3 do estado de emergência


(Imagem: Microcosmo, de Miao Xiaochun (pormenor), fotografado na exposição colectiva Beijing Time, Casa Asia, Matadero, Madrid, 2009)

20 de março de 2020

emergência, 2


foi decretado o encerramento do labirinto.
temendo o excessivo número de ruelas obscuras,
as largas avenidas que afinal não levam a lado algum
e os atalhos que devolvem os incautos andantes ao ponto inicial,
fica interdita a entrada no labirinto.
a partir de hoje andaremos em seu redor
contornando os altos muros exteriores
fechados no campo aberto cá fora
idealizando planos para um atravessamento sem cruzamentos
de um lado ao outro do mundo sem rugosidades
uma vida exactamente oposta
à vida comum das nossas cidades.
é preciso avisar toda a gente: começa hoje a construção
de uma nova camada do universo
uma fina e transparente película de sopro animal
como um manto envolvendo toda a vida antiga que nos fez
e que será num dia futuro
um novo labirinto por sua vez.
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20de Março de 2020, dia 2 do estado de emergência

19 de março de 2020

emergência, 1



há notícia de que estão a cortar todas as pontes
e a usar o entulho para fechar fronteiras,
a história do presente como obelisco de pedaços de passado:
o carnaval dos médicos mascarados na peste negra,
atenas abandonada pelos pássaros,
o grande muro na provence para travar os ventos infectos,
a podridão de constantinopla
ou as fogueiras frente ao mar de que falava lucrécio.
e camus.

estão a ser cortadas pontes
e nós iremos construir túneis
na terra e pelo ar
que tragam e levem o leite e o mel,
e a respiração dos pássaros,
e o teu olhar
múltiplo de todos os gestos
perdidos e agora achados
neste estado de emergência

porque não há história do passado

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19 de Março de 2020, dia 1 do estado de emergência

(imagem da exposição Enki Bilal, Os Fantasmas do Louvre)

17 de janeiro de 2020

as letras de Cláudio de Roma



Depois de Calígula, que se fez famoso
pelas intrigas sexuais e pelas caprichosas execuções,
e antes de Nero, a quem tudo corria de feição nos jogos olímpicos,
a ponto de vencer até a corrida de carros de dez cavalos,
antes de fazer uma grande fogueira em Roma,

entre Calígula e Nero,
Cláudio, encravado numa dinastia encravada numa república,
acrescentou ao alfabeto romano três letras novas,
das quais nenhuma lhe sobreviveu.
Sobreviveram-lhe os portos renovados, as estradas e os aquedutos,
uma porção maior da Britânia conquistada,
tudo partes rígidas do mundo, sólidas, concretas, práticas,

mas não lhe sobreviveram as três luminosas letras novas no alfabeto romano.
Não sei como se pronunciavam,
como encadeavam as suas rodas dentadas na máquina da linguagem,
no funcionamento geral do latim,
se chegaram ao latim vulgar da Ibéria ou se ficaram nos gramáticos.
Sei que ainda não existiam no tempo de Calígula
e já não existiam no tempo de Nero.
Nada de novo, pois esse é em regra o modo próprio de existência
de quase todas as mobílias do mundo
que passam por nós no momento presente
com o ar glorioso de quem viaja constantemente
entre a eternidade futura e a eternidade passada,

sem que mudem um dia que seja 
do calendário da tua vida.

16 de abril de 2019

A catedral.



A catedral, olhando ao longe do alto dos seus pináculos,
viu gente morrendo nos mares de fronteira do velho continente.
E chorou pela humanidade
náufraga ao largo dos seus portos de abundância.
A catedral chorou.
E chorando queimou séculos de história dentro de si,
por uma civilização avariada às vésperas do incêndio,
carente de um sobressalto estremunhado
capaz de acordar o sonâmbulo antes que o galo cante três vezes,
antes que termine a madrugada.

(15 de Abril de 2019, neste dia vimos a catedral de Notre-Dame em chamas)

21 de março de 2019

[Naquele fim de tarde de sol]

Naquele fim de tarde de sol
Dois grossos pingos de chuva caíram
No branco da tua blusa
Cúmplices
Por alturas do teu seio escondido.
Até então escondido.
Naquele princípio de noite iluminada
Entraste de leve nas águas do mar
Cúmplices
Colando o azul da tua saia às tuas coxas encobertas.
Até então encobertas.
As águas do céu e as águas do mar,
Cúmplices,
Mostraram-me o teu corpo.
Naquele princípio de vida
As tuas breves palavras
E as minhas palavras a jorros,
Cúmplices,
Deram-nos vontade de provar o que não existia.
O que até então não existia.

(in Porfírio Silva, Monstros Antigos, Esfera do Caos, janeiro de 2014)