23 de dezembro de 2014

A nova objectividade




É proibido fixar na película qualquer actividade. Um esforço humano,
cor, os efeitos de primeiro plano. Proibido fixar transições.
Desfocagens. Um enquadramento descentrado. Sequer inclinações.
Os jogos de reflexos, tão banais. Ou comércios carnais.
Fausto. Ou Mefistófeles. Pormenores metafísicos. Focagens próximas
que deformam a perspectiva. As composições abstractas.
Dizem-nos que o comércio é como um cavalo de madeira em equilíbrio,
imóvel na clareira do mundo,
como se nunca um sopro atravessasse
os sistemas de equações diferenciais,
nem crianças poderosas os campos de brinquedos públicos.
A vossa tarefa é o inventário de um mundo em vias de extinção.
As fábricas, os rios e as dores são o que são
e não o que fazem. Nessa ciência
toda a beleza será involuntária.
A objectividade é exigente: só no Inverno fixaremos o olhar:
o céu cinzento preserva dos brilhos do sol a imagem,
afasta o atravessamento das sombras na visão,
cauciona uma lisibilidade impassível. A relevância inocente do documento.
A higiene seca da exterioridade,
não meto as minhas mãos no sangue do porco. O gato de Bulgakov
não paira sobre esta casa. Autoridade. Retratos de máquinas mortas:
o grande formato é o meio da nova objectividade alemã.

Revejo-me inteiramente na história da fotografia como história do mundo.


(modificado)

2 comentários:

Porfírio Silva disse...

Magnífico... Um forte abraço!

José Maria Brandão de Brito disse...

Magnífico texto, Porfírio.
Gosto e como tu me identico com os absurdos deste Mundo que às vezes parece não fazer sentido.
A nova objectividade não existe porque a força não me serve de padrão. Só e sempre a razão