(para a Guida Bruno)
Sou um grande utilizador de marcadores de livros. Grande em sentido numérico: muitos, sempre, em simultâneo.
A culpa vem de dentro: desconheço a leitura linear. Persigo sempre múltiplas pistas ao mesmo tempo. Perco-me. Às vezes reencontro-me; nem sempre. Leio para o discurso de logo à tarde, para a conversa namoradeira da manhã seguinte, para o artigo de sexta-feira, para o livro do próximo ano. Para as obras completas póstumas e por rever. E leio para entender por que não entendo o que fingi entender de ti.
Múltiplos livros pedem múltiplos marcadores de páginas. Dois ou três por cada livro: para a página corrente, para as notas, para a bibliografia. E mais para as repetições. E outros para as hesitações. Os livros são bosques por onde se caminha deixando marcas para o regresso eventual. Por onde se caminha perdendo peças da nossa mobília particular. Só não há pistas para o abandono. Há pegadas sobre as folhas caídas. E nem todas as folhas caídas andam distraídas: algumas vigiam secretamente as pernas das mulheres no bosque.
Se o autor é apenas o nome oficial do conjunto difuso de todos os rios que desaguam no livro, o leitor tão-pouco é uno: o que permanece para lá do momento não é uma cadeia discursiva com princípio meio e fim; é um cadáver esquisito das marcas na pele que as palavras deixaram no caminho do filósofo, aquele que começa em Quioto junto ao canal e acaba no perspectivismo ameríndio.
Sou um intenso utilizador de marcadores de livros. Se um deus suficientemente poderoso alcançasse a série temporal de todos os marcadores da minha vida, e as respectivas páginas e parágrafos, poderia ser-me concedida a graça de entender como cheguei aqui. Como cheguei aos meus erros actuais.
Bastaria apenas que o deus além de bondoso não fosse ingénuo e acrescentasse ao lado de cada marcador o número de mortos e famintos então constantes dos censos universais da miséria e da tristeza humanas.
O registo das alegrias ficaria para as lágrimas secas no papel gasto dos marcadores.
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