Subi, como quem se despede e parte,
num gesto indecente inútil:
a escada não leva a lado nenhum.
Mais exacta e capciosamente,
a escada leva à copa das árvores
onde só habitam pássaros (e) refugiados,
uma linha de mundo sem recuo,
presa pelo peso dos rastos, essa força
da gravidade dos frágeis.
A escada no jardim do paraíso interrompe-se
entre uns poucos ramos ralos e folhas,
onde nenhum caminho foi pensado para os nossos meios,
onde nenhuma rosa espera que a colhas,
onde nenhum homem espera que o creias.
Mas alto, bem alto, suficientemente alto
para que a tua ausência defina um lugar invulgar,
fiz uma pergunta esquecida e alguém
caiu de uma escada como quem se despe e parte.
Terminada a colheita, o único fruto no pomar
são inúmeras escadas que levam à copa das árvores.
(Imagem: Fotografia de uma fotografia de José Pedro Croft, in Cadernos de Viagem, com o livro aberto em cima de um canto do meu escritório.)
1 comentários:
"Porque eu sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha altura", escreveu o poeta num momento de grande inspiração e antes de se ir de vez.
O mal é que o escadote só comporta um de cada vez, lá no cimo. Solidão, portanto, ainda que com vistas largas de 360º...
Dri
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