Tens uma dor-fantasma
como quem ainda sente um membro amputado:
perdeste a fé e ela continua a doer-te.
Desarma, o cisma já não é possível:
os príncipes que restam são afásicos,
não podem ser enganados por palavras que não reconhecem
e a incompetência linguística refinou outras faculdades:
é-lhes transparente a expressão espontânea e indomável dos que mentem
— o tom, a cadência e os matizes vocais
dos que dizem ser ainda cedo para começar a pensar no dia de amanhã.
Isso podia salvá-los e salvar-nos,
não fora sermos daqueles que não inventaram o céu nem o inferno,
apenas o purgatório,
e isso mostrar que nada nos preparou para a vida.
Agora que trocaste a arquitectura pela moda,
para teres pronta à tardinha a peça desenhada pela manhã,
não vejo como possas auxiliar-me na minha aflição:
como construir uma habitação com as ruínas do templo?
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