De que são os milagres sinal?
Que o que era cego agora veja;
que o leproso seja limpo dessa pena para os seus erros
e possa voltar ao convívio dos lugares habitados;
que o paralítico se levante e ande (coisa que se vê)
e que no mesmo lanço os seus pecados lhe sejam perdoados (coisa que se não vê)
e que daquele prodígio a este sacramento se transporte confirmação empírica
fazendo assim o milagre da cura física solidário do poder de perdoar
(e quem sabe mesmo de esquecer);
que o surdo tartamudo já ouça e já não gagueje
sem que se lhe pergunte o que vai ele agora ouvir
ou conta ele ter a dizer que mereça nova dicção;
que a tempestade amaine,
os pães se multipliquem,
os peixes se precipitem em multidão para as redes, a prisão e o aprovisionamento
contra tudo o que as leis da natureza destinam e as causas naturais dão como efeito;
que as águas do mar se façam caminho para andar
e as águas do banquete se façam vinho de pura cepa;
que Lázaro regresse do túmulo
e que todos estes milagres e outros portentos
decorram as mais das vezes de simples contacto, imposição das mãos, uma palavra,
raramente recorrendo a maior elaboração de método
– de que são tais milagres sinal?
Da autoridade do legislador a quem incumbem as definições legais
e todas as dos termos técnicos em que assentam os edifícios,
sem cuidar do auditório nem da persuasão,
ou de acordos procurados sobre o real ou sobre o preferível?
Que tu fales e eu ouça
é o milagre que falta.
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