9 de Junho de 2010

Jardinar o efémero

Se das tuas noites de geómetra,
de esquadro e compasso ajudando o lápis,
resultassem teoremas exactos;
se do teu desenho de imaginação concreta,
calculando os custos e os esforços,
nascessem máquinas de celestial precisão
– reconheceríamos aí a tua compreensão de forma e função,
o teu claro olhar sobre o que não existe,
prova de que saberias fazer de um dragão alado um animal doméstico.

Agora,
que pela tua mão ordenes
a cada regresso dos amigos,
na pouca margem que resta num mundo de excessivos objectos,
a abertura de uma clareira ao abrigo do efémero
e aí nos faças sentir acolhidos
num tempo reparador entre tempestades,
essa é outra arte.
E essa tua arte faz-me pensar como as rosas
que, tanto quanto conseguem lembrar-se,
nunca morreu jardineiro algum.

2 comentários:

pedroludgero disse...

Acho este poema assinalável.

Parabéns.

Porfirio Silva disse...

Obrigado.